Nos últimos anos, a Itália parece ter perdido um pouco aquela capacidade de produzir uma música absolutamente inevitável, daquelas que atravessam rádio, praia, TikTok, supermercado, carro alugado e casamento no litoral. Ainda há hits, claro. Há nomes fortes. Há refrões pensados para a estação. Mas falta, por enquanto, um consenso.
E talvez seja exatamente isso que torne o verão de 2026 interessante.
Na parada da Radio Italia da semana de 5 a 11 de julho, quem aparece no topo é Tommaso Paradiso com “Agitare coca cola”. Logo depois vêm “Sorry scusa lo siento”, dos Pinguini Tattici Nucleari, “Partenope”, de Merk & Kremont feat. Serena Brancale e The Kolors, “Canto d’amore”, de Angelina Mango com Marco Mengoni, e “Cabana”, de Irama.
É uma lista que diz bastante sobre o momento da música italiana: pop radiofônico, colaborações estratégicas, artistas pós-Sanremo, nomes consolidados e uma busca clara por leveza. Só que, ao mesmo tempo, o consumo nas plataformas mostra outro retrato.
Na FIMI, o topo recente dos singles traz “Ossessione”, de Samurai Jay & Vito Salamanca, em primeiro lugar, seguido por “La testa gira”, de Fred De Palma, Anitta & Emis Killa, e “Canzone d’amore”, de Geolier. “Al mio paese”, de Serena Brancale, Levante & Delia, também aparece entre os primeiros colocados.
Ou seja: rádio e consumo não estão necessariamente apontando para a mesma música. E isso é um sinal importante.
Os nomes do verão italiano de 2026
Tommaso Paradiso — “Agitare coca cola”
É o nome que aparece no topo da Radio Italia neste momento. Tem cara de verão italiano clássico: melodia direta, clima leve e apelo adulto-pop.
Pinguini Tattici Nucleari — “Sorry scusa lo siento”
O título já entrega a ambição: brincar com idiomas, circular bem no pop contemporâneo e manter a assinatura melódica que transformou a banda em uma das mais populares da Itália recente.
Merk & Kremont feat. Serena Brancale e The Kolors — “Partenope”
Aqui há uma tentativa evidente de juntar pista, identidade mediterrânea e nomes com bom trânsito radiofônico. É candidata natural a música de estação.
Angelina Mango com Marco Mengoni — “Canto d’amore”
Dois nomes enormes da Itália atual em uma faixa que conversa mais com prestígio pop do que com fórmula descartável de verão. Tem força de elenco.
Irama — “Cabana”
Irama entende bem o jogo do pop italiano de verão: refrão, clima, estética e presença. Mesmo quando não domina sozinho, ele costuma aparecer na conversa.
Samurai Jay & Vito Salamanca — “Ossessione”
Aqui está o ponto mais interessante para o LatinPop Brasil. Samurai Jay aparece com força na FIMI e navega numa zona de contato entre urban italiano, latinidade e sonoridades que conversam com outro mercado. Não é apenas “mais uma música de verão”: é um sinal de como o pop italiano também olha para fora.
Fred De Palma, Anitta & Emis Killa — “La testa gira”
A presença de Anitta recoloca o Brasil no mapa do verão italiano. Fred De Palma já tem histórico de aproximação com sonoridades latinas, e essa colaboração mostra como a Itália continua tentando encontrar pontes entre pop local, urbano e mercado internacional.
Serena Brancale, Levante & Delia — “Al mio paese”
Outra faixa importante porque foge da ideia mais óbvia de hit de praia. Tem identidade italiana, presença feminina e um tipo de energia que pode crescer mais por permanência do que por explosão imediata.
Ainda existe tormentone?
Existe a busca. Existe a indústria tentando. Existe a playlist. Existe a rádio. Existe o verão.
Mas o velho tormentone — aquele que parecia dominar tudo sozinho — está cada vez mais difícil de encontrar.
O cenário de 2026 parece mais pulverizado. Uma música lidera na rádio, outra aparece mais forte no consumo, outra cresce por colaboração, outra por nome envolvido, outra por estética. A Itália ainda produz canções de verão. O que talvez tenha mudado é a capacidade de transformar uma delas em experiência coletiva.
E essa é a discussão que fica para amanhã.
Porque, antes de declarar qual é o tormentone de 2026, talvez seja preciso perguntar outra coisa: a Itália ainda quer um tormentone como antes?