Obrigada, Shakira. Parece óbvio. Não é.
Em uma carta publicada pelo El País no último dia 31, Shakira escreveu sobre o conceito que está por trás de sua residência de 12 shows em Madrid. Falou de imigração, mistura cultural, música e pertencimento. Até chegar a uma frase que, para quem trabalha com música latina no Brasil, parece quase uma pequena prestação de serviço público.
Ao defender a ideia de latinidade, e não apenas de hispanidade, ela usou o exemplo mais evidente possível: o Brasil.
“O Brasil, o maior país da América Latina, não fala espanhol, fala português”, escreveu. E completou que a hispanidade não consegue abraçá-lo, enquanto a latinidade consegue.
Pronto.
Parece uma explicação destinada a uma aula de geografia bastante básica. E talvez esse seja justamente o problema: em 2026, a gente ainda precisa explicar isso.
Latino não é sinônimo de quem fala espanhol
Na prática, boa parte da indústria cultural transformou “latino” e “hispânico” em quase sinônimos. Quando se fala em música latina, vêm imediatamente à cabeça artistas mexicanos, colombianos, argentinos, porto-riquenhos, espanhóis – sim, espanhóis, que sequer são latino-americanos – enquanto o Brasil frequentemente aparece em uma categoria paralela, quase como se tivesse pedido para sair do continente por falar português.
É uma contradição curiosa. O espanhol virou uma espécie de senha informal de entrada para uma identidade que nunca foi definida por um único idioma.
E isso aparece em todo lugar.
Na imprensa. Nas campanhas. Nos festivais. Nos rankings. Nas conversas de indústria. Naquelas maravilhosas “turnês latino-americanas” que passam por México, Colômbia, Chile, Argentina e Peru e, quando chegam à fronteira brasileira, aparentemente encontram uma placa de fim da América Latina.
Não, obviamente, todo artista precisa incluir o Brasil em toda turnê. Há logística, tamanho de mercado, custos, promotores, demanda e uma série de fatores comerciais envolvidos.
O problema não é esse.
O problema é chamar uma região de América Latina e continuar pensando nela como América de língua espanhola.
São coisas diferentes.
Curiosamente, o regulamento já entendeu
E aqui existe uma ironia interessante: algumas das principais instituições da própria indústria já sabem disso muito bem.
A Academia Latina da Gravação, por exemplo, reconhece explicitamente gravações em espanhol e português em seus critérios. O Latin Grammy tem um campo dedicado à música brasileira e categorias específicas em língua portuguesa — em 2026, inclusive, a antiga categoria de performance urbana passou a premiar álbum de música urbana em língua portuguesa.
Ou seja: institucionalmente, não estamos exatamente diante de um mistério.
O português cabe na música latina.
O Brasil cabe na música latina.
O regulamento sabe.
Às vezes falta avisar ao resto do prédio.
E o Brasil também ajuda a criar essa distância
Mas seria muito confortável colocar toda a responsabilidade “nos gringos”.
Porque existe outro lado dessa história: o próprio brasileiro muitas vezes não se reconhece como latino.
Por aqui, ainda é comum usar “latino” quase como sinônimo de “pessoa que fala espanhol”.
Ouvimos Shakira, Luis Miguel, Bad Bunny ou Karol G e dizemos “música latina”. Colocamos um artista brasileiro na conversa e, de repente, ele é apenas “brasileiro”.
Como se uma coisa anulasse a outra.
Não anula.
A música brasileira tem características próprias, uma indústria gigantesca, uma língua diferente e uma história musical tão poderosa que consegue funcionar quase como um universo independente. Talvez justamente por isso tenhamos crescido culturalmente olhando pouco para os países ao nosso redor — e eles, muitas vezes, olhando pouco para nós.
Mas independência cultural não muda geografia.
Nem identidade continental.
O Brasil não é menos latino porque fala português. É uma das razões pelas quais a própria ideia de latinidade é mais diversa do que a de hispanidade.
É exatamente o que Shakira está dizendo.
Por que essa frase importa
Também importa quem disse.
Não foi uma reflexão perdida em uma discussão acadêmica sobre identidade latino-americana.
Foi Shakira, uma colombiana que há mais de três décadas ocupa um lugar raríssimo entre América Latina, Estados Unidos, Europa e o mercado global, escrevendo para um dos principais jornais da Espanha.
E, ao tentar explicar a própria concepção de latinidade, ela escolheu o Brasil.
Na carta, Shakira vai além: lembra que espanhol, português, italiano e francês são línguas latinas e descreve a América Latina como resultado do encontro entre América, África e o sul da Europa. Sua residência em Madrid foi concebida justamente a partir dessa ideia de mistura, com um carnaval que passará por referências do Caribe, de Barranquilla e também do Brasil.
Há muito mais na carta — imigração, solidão, integração, música como espaço de encontro.
Mas aquela frase ficou comigo porque ela encosta em algo que o LatinPop Brasil discute desde que existe.
Não precisamos escolher entre ser brasileiros e ser latinos.
Não precisamos falar espanhol para pertencer à América Latina.
E não precisamos pedir licença para entrar numa definição da qual já fazemos parte.
Talvez só esteja na hora de atualizar o mapa mental de uma parte da indústria.
Porque a América Latina não termina onde termina o espanhol.
E, sim, Shakira: a gente concorda. Bastante.