Jão passou grande parte da carreira sendo cobrado por fazer um pop considerado adolescente demais. Em Memórias Póstumas, ele responde às críticas com um álbum mais adulto, introspectivo e literário. O problema é que a transformação acontece de forma tão brusca que parece faltar um capítulo inteiro nesse processo.

É como se Jão tivesse saído do ensino fundamental e entrado diretamente na faculdade, sem passar pelo ensino médio.

Há amadurecimento nas letras, nas imagens e nos assuntos que ele escolhe enfrentar. Mas a evolução narrativa não encontra o mesmo cuidado na construção musical. Memórias Póstumas tem muito a dizer, mas nem sempre encontra uma melodia capaz de fazer essas palavras chegarem ao ouvinte.

Do início até aproximadamente a sexta ou sétima faixa, a sensação é de estar ouvindo variações da mesma música. As bases seguem caminhos muito próximos, os arranjos pouco se movimentam e os refrões raramente provocam a ruptura necessária para individualizar cada faixa. O disco permanece preso a uma mesma temperatura emocional e sonora.

Não é uma questão de exigir um álbum cheio de hits ou momentos explosivos. Introspecção não precisa significar monotonia. Um trabalho pode ser triste, silencioso e contido, mas ainda assim apresentar diferentes texturas, melodias e formas de traduzir essa tristeza.

Em Memórias Póstumas, falta justamente essa variação.

As letras são bonitas e revelam um Jão mais atento à passagem do tempo, à ausência e ao que permanece depois de uma perda. Imagens como ossos, restos, memória e morte reaparecem ao longo do repertório, criando unidade conceitual. Em alguns momentos, porém, essa recorrência deixa de aprofundar o álbum e começa a reforçar sua sensação de repetição.

É importante considerar de onde esse disco nasceu. O quinto álbum do cantor foi construído durante um período de luto pela morte do pai e depois de um hiato de mais de um ano. O próprio projeto foi anunciado como um conjunto de “14 músicas sobre a vida, nem sempre como ela é”.

Isso explica a ausência, o recolhimento e o peso que atravessam o trabalho. Explica também o encerramento dedicado ao pai, momento em que o conceito encontra sua expressão mais íntima e verdadeira.

Mas explicar não é necessariamente resolver.

Até mesmo as canções associadas ao amor e à relação com Pedro Tófani são atravessadas por sofrimento, medo ou perda. Não existe alívio. Não existe uma fresta de felicidade. O disco permanece inteiro dentro da mesma dor, como se qualquer gesto de luminosidade pudesse romper sua coerência.

Essa escolha faz sentido conceitualmente, mas cobra um preço alto na experiência de audição. Sem contrastes, a tristeza perde potência. Quando tudo dói da mesma maneira, poucas músicas conseguem deixar uma marca própria.

A mudança se torna ainda mais evidente quando comparada a SUPER. Jão saiu de um álbum que reunia faixas como “Me Lambe”, “Escorpião” e “Super”, com refrões definidos, personalidade melódica e diferentes níveis de energia, para uma obra deliberadamente mais sóbria e uniforme. Não se trata de pedir que ele repita o disco anterior, mas de reconhecer que, ao abandonar uma linguagem, ele ainda não encontrou completamente a próxima.

Visualmente, a era chegou impecável. A capa fotografada por Hugo Comte, responsável também pelo trabalho visual de Future Nostalgia, de Dua Lipa, ajuda a colocar Jão em um território mais sofisticado e internacional. A estética promete um renascimento artístico profundo. Na audição, porém, o álbum não sustenta integralmente a expectativa criada pelas imagens.

Talvez isso mude no palco.

Jão sempre foi um artista cuja música cresce quando ganha corpo, cenário, multidão e interpretação ao vivo. Ouvir um álbum seu em casa e vivê-lo durante um show costumam ser experiências muito diferentes. Memórias Póstumas pode encontrar na performance os picos emocionais e as variações que faltam à gravação.

Por isso, o disco ainda merece novas chances. Algumas faixas podem crescer com o tempo, outras podem revelar detalhes depois que a surpresa da mudança desaparecer. Mas, em sua audição pura e simples, o álbum não funciona por completo.

Memórias Póstumas é um passo importante na tentativa de Jão de abandonar o lugar de eterno adolescente do pop brasileiro. É um disco corajoso naquilo que deseja enfrentar e sincero na dor que carrega.

Só que amadurecer não é apenas escolher palavras mais adultas. É também saber transformá-las em música.

E, desta vez, faltou melodia para tudo aquilo que Jão queria dizer.

Nota

7,2/10