Depois de anos fora das telas, Sou Luna está de volta. Os personagens cresceram, o tempo passou e a vida seguiu caminhos diferentes. Luna deixou a patinação após um acidente, Matteo se tornou um cantor e ator famoso, e a protagonista retorna de Cancún para Buenos Aires para o casamento de Delfi e Pedro. O reencontro com Simón e uma nova competição de patinação despertam nela a vontade de voltar às pistas.
A premissa funciona. É um retorno que faz sentido dentro daquele universo. Não depende apenas de nostalgia e consegue encontrar uma justificativa natural para reunir novamente boa parte dos personagens.
O problema começa quando a série decide revisitar justamente aquilo que fez Sou Luna permanecer viva por tantos anos: suas relações.
O restante do texto contém ALERTA DE SPOILER
O problema não é Luna terminar com Simón
Se existe um assunto que dominou as redes sociais desde a estreia da nova temporada, é o destino de Luna. Ela termina a história ao lado de Simón.
A reação de grande parte do fandom foi imediata. Durante anos, a série construiu Luna e Matteo como o casal central da narrativa. Era natural que boa parte do público esperasse vê-los juntos novamente. Mas esse, curiosamente, não é o maior problema da temporada.
Uma continuação não precisa entregar exatamente aquilo que os fãs imaginam. Personagens amadurecem, mudam de ideia, seguem caminhos diferentes. Isso faz parte de qualquer boa história.
O problema é outro. A série simplesmente não constrói esse novo destino com a profundidade que ele exige.
Quando reencontramos Luna e Matteo, eles ainda estão juntos. Depois da lesão que afasta Luna da patinação, o relacionamento acaba. A partir daí, Matteo praticamente desaparece da trama principal, enquanto Simón assume naturalmente o espaço afetivo da protagonista.
Como ideia, isso poderia funcionar. Como desenvolvimento dramático, falta tempo, conflito e emoção.O público não rejeita apenas o resultado. Rejeita a forma como a história chega até ele.
Matteo virou quase uma participação especial
A presença de Ruggero Pasquarelli na divulgação da série alimentou naturalmente a expectativa dos fãs. Não apenas porque Matteo sempre foi um dos personagens mais importantes de Sou Luna, mas porque sua relação com Luna sustentou boa parte da narrativa durante três temporadas.
Dentro da nova série, porém, sua participação é surpreendentemente pequena.
Matteo agora é uma celebridade, cantor e ator de sucesso, presente em todos os lugares dentro daquele universo. A construção exagerada do personagem, quase caricata em alguns momentos, parece servir mais para justificar sua distância da história do que para desenvolver um novo arco realmente interessante.
É impossível não se perguntar se essa redução aconteceu por uma decisão criativa ou se questões de bastidores influenciaram a construção da temporada. Oficialmente, nada disso é explicado.
Independentemente da resposta, o efeito na tela é evidente. A série utiliza Matteo para despertar a memória afetiva do público, mas oferece muito pouco dele quando a história realmente começa.
A ausência de Valentina Zenere pesa mais do que parece
Outro vazio difícil de ignorar é o de Ámbar. Valentina Zenere nunca foi apenas uma vilã. Ela era uma antagonista à altura de Luna. As duas dividiam a pista, disputavam espaço, protagonismo e afeto em pé de igualdade. Existia tensão dramática sempre que elas dividiam uma cena.
A nova rival cumpre seu papel dentro da competição, mas a diferença de idade e de trajetória muda completamente a dinâmica. Não há o mesmo peso. Não existem embates capazes de produzir a intensidade que marcou a série original.
É justamente nesses momentos que percebemos como Sou Luna não era feita apenas de romances. Era feita também de rivalidades muito bem construídas.
Gastina mostra como uma continuação deveria funcionar
Nem tudo decepciona. Entre os reencontros, Gastón e Nina aparecem como um dos maiores acertos da temporada. Os dois continuam reconhecíveis, amadurecidos e coerentes com aquilo que viveram anteriormente. Existe evolução. Existe continuidade.
O casal prova que era possível revisitar personagens queridos sem apagar tudo aquilo que o público aprendeu a amar ao longo dos anos.
Talvez seja justamente por isso que Luna e Matteo deixem uma sensação tão amarga.
A crítica maior é para a Disney
Sou Luna: De Volta à Pista não é uma série ruim. O retorno à patinação funciona, a nova competição cria um bom conflito, os reencontros emocionam e o primeiro episódio ainda termina com um gancho eficiente ao colocar Luna diante de uma ameaça misteriosa.
Há carinho em muitos detalhes, Mas também existe uma contradição difícil de ignorar.
A Disney sabia exatamente por que estava trazendo Sou Luna de volta. Sabia do tamanho da comunidade que continuou acompanhando a série durante todos esses anos.
Sabia da força de Luna, Matteo, Ámbar, Simón, Delfi e dos casais que marcaram uma geração. A nostalgia foi usada como ponto de partida para promover a nova produção.
Só que nostalgia também cria responsabilidade. Quando uma empresa decide revisitar uma obra tão importante para seu público, ela assume um compromisso com a história que ajudou a construir. Isso não significa repetir o passado ou impedir mudanças. Significa fazer com que essas mudanças pareçam merecidas.
Em vários momentos, Sou Luna: De Volta à Pista parece querer apenas o carinho que os fãs ainda sentem pela série original, sem dedicar o mesmo cuidado às escolhas que definem seu encerramento.
No fim, a sensação é inevitável.
A Disney queria os fãs de volta. Só que não pareceu igualmente interessada em preservar aquilo que fez esses fãs se apaixonarem por Sou Luna.
Nota: 6/10
A nova temporada tem uma premissa sólida, personagens que continuam carismáticos e bons momentos de reencontro. Mas a ausência de uma antagonista do peso de Ámbar, a participação reduzida de Matteo e, principalmente, um desfecho pouco desenvolvido para o principal triângulo amoroso transformam um retorno promissor em uma oportunidade parcialmente desperdiçada.