Jão está de volta. E bastaram poucos minutos para que a internet retomasse seu esporte favorito: decidir, antes mesmo de ouvir o disco, se ele merece ou não ocupar o espaço que conquistou.

Depois de mais de um ano de pausa, o cantor anunciou “Memórias Póstumas”, seu quinto álbum de estúdio. O trabalho é uma homenagem ao pai, que morreu repentinamente pouco depois do encerramento da SUPERTURNÊ.

Não se trata, portanto, apenas de mais um comeback cuidadosamente desenhado, com nova estética, figurino e paleta de cores. Jão está voltando a partir de uma ausência. Está transformando em música aquilo que não pôde continuar vivendo.

No vídeo que apresenta o projeto, ele diz:

“Se o amor não escolhe para onde vai, aqui eu escolho. Esse texto é meu. Nele, você ainda corta minhas unhas, eu te conto da minha casa nova, dos filhos que eu ainda não tenho, das coisas mais lindas dos meus dias mais comuns. Se a única coisa que resta são as minhas palavras, então eu decido, aqui e agora, que é nelas que morará, para sempre, todo o meu amor.”

É um texto sobre permanência. Sobre o impulso quase impossível de preservar alguém dentro das palavras quando a vida já não permite novos encontros.

Mas Jão é Jão. E, quando Jão aparece, existe uma parcela das redes sociais que não discute a música: discute o direito de ele existir com tamanha relevância.

Jão incomoda porque não pede licença

Em setembro de 2023, depois da apresentação do cantor no The Town, escrevi neste mesmo espaço sobre o que Jão e Måneskin tinham em comum além da camisa da Roma usada por ele naquela noite.

Os dois carregavam um sucesso proporcional ao desprezo que despertavam no antigo Twitter, atual X.

Enquanto multidões lotavam shows, as redes insistiam que ninguém gostava deles. Enquanto ingressos desapareciam das bilheterias, tuiteiros explicavam que aquilo era apenas “modinha”. Enquanto artistas construíam carreiras diante de plateias reais, uma bolha digital decretava que eles não tinham qualquer relevância.

Três anos depois, pouca coisa mudou.

Jão já não precisa provar que consegue lotar estádios, mobilizar fãs ou criar uma linguagem reconhecível. Sua carreira superou há muito tempo a fase da promessa. Ainda assim, sua presença provoca uma reação quase automática em quem parece enxergar o sucesso das novas gerações como uma afronta pessoal.

Ele é chamado de exagerado por transformar sentimentos em espetáculo. De calculado por construir eras visuais. De superficial por escrever sobre dores compreensíveis. De pretensioso quando ousa ampliar suas referências.

Curiosamente, características semelhantes são celebradas quando aparecem em artistas consagrados pelo tempo.

O problema talvez nunca tenha sido a dramaticidade, a ambição ou o tamanho do espetáculo. O problema é quem tem autorização para usá-los.

O passado não precisa morrer para que o presente exista

Existe um tipo de ouvinte que não consegue elogiar um artista novo sem tratá-lo como uma ameaça ao passado.

Se Jão referencia nomes que vieram antes, está copiando. Se encontra uma linguagem própria, está se achando importante demais. Se conversa com o público jovem, sua obra é automaticamente reduzida a algo menor, descartável e pouco sofisticado.

É o mesmo raciocínio que transforma gosto pessoal em hierarquia cultural.

Não gostar é uma experiência absolutamente normal. Ninguém é obrigado a ouvir Jão, acompanhar sua carreira ou se emocionar com seus discos. Mas existe uma enorme distância entre não gostar e tentar convencer o mundo de que aquilo que mobiliza milhões de pessoas não possui valor algum.

Elis Regina continua sendo Elis Regina. Rita Lee continua sendo Rita Lee. Cazuza continua sendo Cazuza. A existência de novos artistas não apaga quem veio antes, assim como reverenciar o passado não deveria exigir desprezar o presente.

A música só permanece viva porque cada geração encontra novas maneiras de falar sobre sentimentos antigos.

O cotidiano sempre foi o grande palco de Jão

O maior trunfo de Jão nunca foi inventar emoções inéditas. Foi entender que as experiências mais comuns podem parecer extraordinárias quando alguém consegue traduzi-las.

A festa, a volta para casa, o amor que terminou, o ano difícil, a vontade de desaparecer e a necessidade de ser visto. Sua música sempre encontrou força naquilo que muita gente vive, mas nem sempre consegue nomear.

Em “Memórias Póstumas”, esse cotidiano parece ganhar outro peso.

O pai que ainda corta suas unhas. A casa nova que ele gostaria de mostrar. Os filhos que ainda não existem. As coisas bonitas dos dias mais comuns.

Não são imagens grandiosas. E é justamente por isso que doem.

O luto não se manifesta apenas nas grandes datas ou nos acontecimentos definitivos. Ele também mora nas pequenas conversas que deixaram de acontecer, nos gestos banais que pareciam garantidos e nos futuros que nunca chegaram a existir.

Jão transforma essas ausências em texto antes mesmo de transformá-las em música.

Nem toda obra precisa ser julgada em tempo real

Vivemos uma época em que ninguém espera mais o álbum chegar.

A capa é julgada antes da primeira faixa. O texto de apresentação vira motivo de piada antes que o projeto seja compreendido. A escolha estética é transformada em meme. O artista precisa atravessar um tribunal permanente no qual cada detalhe é analisado por pessoas que, muitas vezes, já decidiram odiá-lo.

Esse funcionamento é especialmente perverso diante de um trabalho nascido do luto.

Não porque a experiência pessoal deva blindar qualquer obra de críticas. “Memórias Póstumas”, como todo álbum, poderá ser debatido, elogiado ou questionado depois que estiver disponível.

Mas talvez exista alguma dignidade em permitir que uma obra seja apresentada antes de reduzi-la a uma sequência de ironias.

Talvez seja possível ouvir primeiro.

Os números continuam falando fora da bolha

Em 2023, escrevi que os números da vida real falavam por Jão e Måneskin.

Continuam falando.

Não apenas os números de streaming, facilmente usados de acordo com o argumento de ocasião, mas os números de pessoas que compram ingressos, esperam por anúncios, atravessam cidades, aprendem letras e transformam músicas em parte da própria história.

Nenhum artista alcança esse nível de identificação apenas por imposição da indústria ou por histeria coletiva. Há algo que acontece entre a obra e o público, mesmo quando uma parte da internet se recusa a reconhecer.

Jão voltou porque ainda tem o que dizer. E seu público voltou a ouvi-lo porque existe uma relação construída ao longo de anos, discos, shows e experiências compartilhadas.

O restante poderá gostar ou não.

Só não deveria confundir preferência pessoal com veredito histórico.

Não há nada mais cafona do que o elitismo musical de quem acredita que seu próprio gosto deve funcionar como régua universal. E não há nada mais triste do que envelhecer convencido de que tudo o que veio depois da sua juventude é necessariamente pior.

Jão está de volta.

O tribunal das redes sociais também.

Felizmente, a música costuma sobreviver aos seus juízes.