Durante boa parte de sua trajetória internacional, Anitta pareceu preocupada em responder a uma pergunta: o que uma artista brasileira precisa fazer para ser aceita pela indústria latina e pelo mercado global?
Ela aprendeu espanhol, gravou reggaeton, transitou pelo pop urbano, reuniu produtores internacionais e construiu uma carreira que nenhuma outra cantora brasileira de sua geração havia conseguido construir. Houve mérito, estratégia e conquistas históricas nesse percurso. Artisticamente, porém, nem sempre era possível reconhecer quem Anitta realmente queria ser por trás de tudo aquilo que o mercado esperava que ela fosse.
Em EQUILIBRIVM II, essa preocupação finalmente parece ter desaparecido.
Continuação do álbum lançado em abril, o nono trabalho de estúdio da cantora não soa como uma nova tentativa de encontrar espaço dentro de um gênero ou de um mercado. Anitta cria o próprio lugar, reunindo funk, samba, bossa nova, reggae, forró, ijexá, música eletrônica, religiosidade, sensualidade, memória familiar e ancestralidade.
Não se trata apenas de um disco “brasileiro”. É o álbum em que Anitta finalmente encontra a sua própria MPB.
Uma música popular brasileira que só poderia ser dela
A sigla MPB, neste caso, não deve ser entendida como um gênero fechado ou como um selo de respeitabilidade concedido pelas participações de Maria Bethânia, Alceu Valença e Mart’nália.
A música popular brasileira de Anitta é ampla, urbana, religiosa, dançante e contraditória. É uma MPB na qual o tamborzão pode encontrar os tambores do candomblé; a gafieira pode dividir espaço com o funk; e uma oração pode se transformar em música pop sem perder sua dimensão espiritual.
Essa combinação não aparece como um catálogo de ritmos nacionais colocado a serviço de uma ideia genérica de brasilidade. As escolhas ajudam Anitta a contar a própria história: sua relação com a fé, o corpo, a família, o trabalho, a ambição e as pressões enfrentadas ao longo da carreira.
A cantora resume o espírito do projeto ao dizer que se colocou inteira no disco, com músicas que carregam sua espiritualidade, sua visão de mundo, as brasilidades que a encantam e elementos autobiográficos.
É justamente essa presença pessoal que diferencia EQUILIBRIVM II de outros momentos de sua discografia. Pela primeira vez em muito tempo, Anitta não parece escolher caminhos pensando primeiro em como será recebida pelo mercado. O álbum não procura transformar a cantora em uma versão brasileira do pop latino. Ele transforma sua experiência brasileira em música pop.
Convidados que fazem parte da narrativa
A lista de participações é extensa e impressionante: Maria Bethânia, Alceu Valença, Mart’nália, MC Tha, Alexandre Carlo, Mestrinho, King Saints, Letícia Fialho, Grupo Ofá, Katú Mirim, Brô MC’s e outros nomes atravessam as 17 faixas.
Poderia facilmente parecer uma coleção de encontros pensados para produzir manchetes. No entanto, as colaborações estão ligadas aos diferentes mundos musicais, religiosos e culturais que Anitta pretende reunir.
Maria Bethânia declama palavras em homenagem a Ogum em “Ogum Me Rodeia”. Alceu Valença participa do forró “Não Me Cutuca”. Mart’nália divide os vocais do samba-pop “Feitiço”. MC Tha aparece no ijexá de “Sem Pressa”, enquanto Katú Mirim e o grupo Brô MC’s ajudam a conduzir a celebração dos povos indígenas em “OKE”.
Mais do que emprestar prestígio ao álbum, esses artistas ampliam sua narrativa. Anitta se coloca no centro do trabalho, mas reconhece que a música e a espiritualidade sobre as quais deseja cantar não começaram nela.
Também há espaço para vozes contemporâneas, artistas independentes, músicos indígenas e integrantes de comunidades de terreiro. É uma escolha que impede que a ancestralidade funcione apenas como estética e aproxima o projeto daqueles que preservam e renovam essas tradições.
A fé como experiência pessoal
Religiosidade e espiritualidade ocupam grande parte de EQUILIBRIVM II. Exus, pombagiras, Ogum, Oxum, Nossa Senhora Aparecida, rituais de proteção e referências indígenas aparecem ao longo do disco.
O mérito está em não transformar esses elementos em uma aula ou em um exercício de exotismo. A fé surge como parte da experiência íntima de Anitta: aquilo a que ela recorre diante do medo, da pressão, da necessidade de proteção e do desejo de encontrar equilíbrio.
“Você Já Sabe”, faixa de abertura, aproxima os tambores sagrados do candomblé do tamborzão do funk. “Eu Não Sou Santa”, gravada com Mestrinho, parte da devoção a Nossa Senhora Aparecida e das mulheres da família da cantora. “Contemplação”, com o Grupo Ofá, assume a forma de uma oração musicada.
O primeiro EQUILIBRIVM já havia sido percebido fora do Brasil como um retorno de Anitta às próprias raízes, marcado pela combinação de gêneros brasileiros e por uma abordagem mais introspectiva. O segundo volume aprofunda essa ideia e parece menos interessado em equilibrar a identidade brasileira com exigências internacionais.
Agora, o Brasil não é uma das partes do projeto. É o centro dele.
O álbum é sobre Anitta
Entre tantas referências culturais, EQUILIBRIVM II funciona melhor quando permite enxergar a mulher por trás da personagem pública.
“Pra Você Gostar de Mim” parte da canção eternizada por Carmen Miranda para refletir sobre uma artista que precisou se adaptar à indústria para ser aceita. Anitta traça um paralelo direto entre a própria história e a de Carmen, assumindo que o projeto nasceu do desejo de construir para si um final diferente.
A comparação ajuda a compreender todo o álbum.
Anitta passou anos demonstrando que conseguia se comunicar com diferentes públicos, cantar em diferentes idiomas e ocupar diferentes mercados. Em algum momento, porém, a adaptação deixou de ser apenas uma ferramenta e passou a ameaçar sua identidade artística.
Em “Respira”, a cantora volta o olhar para a própria trajetória, para a origem na favela, para a objetificação de seu corpo, para o preconceito contra o funk e para o tratamento desigual dado às mulheres na indústria. É um momento em que o conceito de equilíbrio deixa o campo abstrato e ganha uma dimensão profissional e autobiográfica.
O resultado não é uma negação da carreira internacional. Sem aqueles anos de expansão, talvez Anitta não tivesse liberdade, repertório ou poder para realizar um projeto desta dimensão. EQUILIBRIVM II soa como o momento em que ela utiliza tudo o que conquistou para deixar de obedecer às regras que a levaram até ali.
Nem todas as faixas têm o mesmo peso
O disco, no entanto, não é perfeito.
Com 17 músicas e uma quantidade enorme de gêneros, símbolos, colaborações e ideias, EQUILIBRIVM II perde força em alguns momentos. Nem todas as composições apresentam a mesma profundidade do conceito que as envolve, e algumas mensagens são mais interessantes no plano das intenções do que em sua realização lírica.
Há também o risco de que a abundância de referências dilua a presença da própria Anitta. Em determinados encontros, a força simbólica dos convidados e dos elementos culturais mobilizados pode parecer maior do que a canção que os reúne.
O curta-metragem que acompanha o lançamento amplia o universo do álbum e ajuda a organizar sua narrativa espiritual e visual. Ainda assim, um disco precisa sobreviver para além das explicações, dos depoimentos e das imagens. Em seus melhores momentos, EQUILIBRIVM II consegue. Em outros, a grandiosidade do projeto parece ligeiramente maior do que a música.
Essas irregularidades impedem que o álbum seja tratado como uma obra irretocável, mas não anulam sua importância.
Anitta joga o próprio jogo
Durante anos, Anitta conquistou o mundo aprendendo a jogar o jogo da indústria. Em EQUILIBRIVM II, ela finalmente parece interessada em jogar o próprio jogo.
É um trabalho ambicioso, pessoal e artisticamente livre. Um disco que não busca apagar as contradições da cantora, mas colocá-las lado a lado: o sagrado e o profano, o popular e o sofisticado, a favela e o mercado global, a fé e a sensualidade, o funk e a MPB.
A principal conquista não está em provar que Anitta também pode cantar samba, bossa nova ou forró. Está em mostrar que tudo isso pode fazer parte de sua música sem que ela precise abandonar aquilo que sempre foi.
EQUILIBRIVM II não é perfeito. Com 17 faixas, perde fôlego em alguns trechos, e nem todas as letras alcançam a profundidade de seu conceito. Ainda assim, é um dos trabalhos mais pessoais, coerentes e livres de Anitta.
Pela primeira vez em muito tempo, ela não parece tentando entrar em algum mercado. Parece criando um lugar para si.
Nota: 8/10