A disputa em torno da carreira e do patrimônio de Tini Stoessel ganhou neste sábado (29) uma nova camada: quem detém os direitos relacionados à marca “TINI”?
Durante o programa SQP, a jornalista argentina Yanina Latorre afirmou que Alejandro Stoessel estaria avaliando, além de uma eventual cobrança pelo período em que atuou como manager da filha, uma reivindicação pela “invención de marca” — a criação e o desenvolvimento comercial de TINI ao longo da carreira.
“Pelo que eu entendo, o problema agora é que o pai de Tini estaria avaliando, além [do trabalho] como manager, também pela ‘invenção da marca’”, disse Latorre. Até o momento, não existe uma ação judicial pública ou cobrança formal conhecida baseada nesse argumento. A informação permanece atribuída à jornalista e às fontes ouvidas por ela.
Mas uma busca nos registros de propriedade industrial mostra que a discussão é mais complexa do que simplesmente determinar quem “criou” o nome artístico: a Disney Enterprises aparece como titular de registros de “TINI” inclusive na própria Argentina.
Disney registrou “TINI” na Argentina
O Boletim de Marcas do Instituto Nacional da Propriedade Industrial da Argentina (INPI) mostra que, em outubro de 2024, foram concedidos à Disney Enterprises, Inc. registros da denominação TINI em diferentes classes.
Entre elas estão as classes 3, 16, 18, 20, 21, 24, 25 e 26, que abrangem categorias como cosméticos, produtos impressos, bolsas e artigos de couro, móveis, utensílios, tecidos, roupas e acessórios.
Ou seja: não se trata apenas de um registro antigo localizado em algum mercado distante. Há registros argentinos da palavra “TINI” em nome da Disney.
A relação tem origem evidente na história profissional da artista. Martina Stoessel tinha 15 anos quando estreou como protagonista de Violetta, em 2012, produção que a transformou em uma estrela internacional do Disney Channel. O ciclo terminou justamente com o filme de 2016 Tini: Depois de Violetta — ou Tini: El gran cambio de Violetta, em espanhol —, que utilizava o nome que posteriormente se consolidaria como identidade artística da cantora.
Os registros da Disney não estão limitados à Argentina
Também há registros de “TINI” ligados à Disney em outros países.
No Chile, a marca aparece em nome da Disney Enterprises em diversas classes, incluindo entretenimento, roupas, cosméticos e produtos audiovisuais. O registro foi concedido em 2017 e tem vigência indicada até março de 2027.
No Panamá, o boletim oficial de propriedade industrial registra a Disney como titular de “TINI”, com pedido feito em outubro de 2015 e registro concedido em 2017.
Nos Estados Unidos, registros do órgão de marcas americano também mostram que a Disney apresentou pedido para TINI e chegou a participar de procedimento de oposição relacionado à marca em 2018.
Isso ajuda a entender por que uma eventual discussão sobre “quem criou a marca TINI” não poderia ser analisada apenas a partir da relação entre Martina e Alejandro Stoessel.
E a própria Tini? “TINI STOESSEL” está registrada em nome de Martina
Há ainda uma peça muito recente nesse quebra-cabeça.
O INPI argentino concedeu em 21 de maio de 2026 três registros de “TINI STOESSEL” diretamente em nome de Martina Stoessel.
Os registros abrangem as classes 41, 25 e 28. A classe 41 é especialmente relevante para uma artista porque contempla serviços de educação, formação, entretenimento e atividades culturais; a 25 inclui roupas e calçados; e a 28 abrange, entre outros itens, jogos e artigos esportivos.
Portanto, os documentos públicos mostram hoje pelo menos dois cenários diferentes na Argentina:
Disney Enterprises — “TINI”, com registros concedidos em diversas classes em 2024.
Martina Stoessel — “TINI STOESSEL”, com registros concedidos em três classes em maio de 2026.
Isso não significa automaticamente que exista uma incompatibilidade entre eles. Marcas são registradas para determinados produtos e serviços, e diferentes sinais podem coexistir de acordo com seu alcance e com as decisões dos órgãos responsáveis.
Ter uma marca registrada não significa ser “dono do nome” em qualquer situação
Esse ponto é essencial para entender a discussão.
Direitos de marca são territoriais: valem nos países ou regiões em que foram registrados. Além disso, a proteção depende das categorias de produtos e serviços incluídas no pedido. A Organização Mundial da Propriedade Intelectual explica que uma mesma denominação pode ter situações jurídicas diferentes conforme o território e as classes envolvidas.
O próprio INPI argentino exige que cada pedido especifique quais produtos ou serviços a marca pretende distinguir.
Por isso, a existência de um registro de “TINI” pela Disney em determinado país ou classe não significa que a empresa controle automaticamente o nome artístico de Martina Stoessel no mundo inteiro.
Da mesma forma, registrar “TINI STOESSEL” não permite concluir, por si só, que todos os direitos anteriores sobre “TINI” deixaram de existir.
E existe outra questão relevante: a legislação argentina estabelece restrições ao registro do nome, pseudônimo ou retrato de uma pessoa sem seu consentimento. O registro público, porém, não revela necessariamente todos os contratos, autorizações, licenças ou acordos que podem ter existido entre Tini, sua família e Disney durante a fase de Violetta.
Então a Disney poderia entrar em uma eventual disputa?
É possível que registros anteriores da empresa se tornem relevantes caso os direitos sobre a marca “TINI” sejam efetivamente discutidos. Isso é diferente de afirmar que Disney já entrou no conflito — não entrou.
Até agora, não há informação pública de que a Disney tenha feito qualquer reivindicação contra Tini, Alejandro Stoessel ou as empresas ligadas à família.
Também não há indicação de que a companhia esteja questionando os registros de “TINI STOESSEL” concedidos à cantora neste ano.
O que os documentos demonstram é outra coisa: a história jurídica e comercial de “TINI” não começa nem termina com Alejandro Stoessel.
Se ele efetivamente decidir sustentar que merece uma compensação pela “criação” da marca, será necessário entender quais direitos foram registrados, licenciados ou contratados ao longo da trajetória da artista — especialmente durante os anos em que ela estava ligada à Disney.
A discussão surge no meio da auditoria do patrimônio de Tini
A nova informação aparece poucos dias depois de vir a público que Tini contratou uma auditoria privada para revisar sociedades, contas, contratos e direitos relacionados aos cerca de 15 anos em que a carreira foi administrada pelo pai.
Segundo informações confirmadas pelos advogados da cantora à imprensa argentina, Alejandro deixou de representá-la há cerca de três meses. A auditoria busca esclarecer a estrutura das empresas responsáveis pelas receitas provenientes de música, imagem, publicidade e espetáculos e qual é a participação efetiva da artista nesses negócios.
Valores como uma fortuna estimada em US$ 70 milhões e receitas de US$ 43 milhões atribuídas à FUTTTURA vêm sendo publicados por veículos argentinos, mas não foram respaldados até agora por documentação financeira pública. Também não há, neste momento, denúncia criminal conhecida contra Alejandro Stoessel.
A eventual cobrança pela “marca TINI”, portanto, ainda está no terreno das informações de bastidores.
Os registros públicos permitem confirmar que Disney e Martina Stoessel possuem ou receberam registros relacionados a TINI em diferentes formatos, classes e territórios. O que não permitem concluir é quem teria direito a uma eventual compensação entre pai e filha — ou se essa cobrança chegará de fato à Justiça.