Pablo Alborán diz que é gay. Mas isso deveria ser notícia?

“Pablo Alborán confessa”. “Pablo Alborán sai do armário”. “Pablo Alborán revela”. Os títulos das matérias sobre o vídeo postado pelo espanhol nesta quarta-feira (17) são a prova de que a sociedade ainda não aprendeu a lidar com a homossexualidade.

Em um bonito desabafo, o cantor disse que “precisa ser mais feliz do que era antes” e conta aos fãs que é gay. Se fosse motivo para graça, aqui no Brasil usaríamos o meme “e choca 0 pessoas”.

Destaque: Paty Cantú – exemplo de força, humanidade e talento em entrevista exclusiva

Mas a pergunta que fica é: por que esse tipo de declaração ainda é notícia? Por que, em 2020, com um vírus que assola o mundo, a pessoa com quem você dorme ainda causa curiosidade? Por que as pessoas sentem a necessidade de opinar sobre isso?

É cruel. E por isso eu entendo a postura de Alborán: quando fala sobre a liberdade que teve para se assumir à família, amigos, gravadora, ele incentiva a normalização. “Sou gay, e…”

A verdade, sabemos, é que por mais que muitas pessoas estejam no processo de desconstrução homofóbica, vivemos em um mundo que sufoca a liberdade e torna a orientação sexual uma etiqueta.

O malaguenho disse ainda que a “vida segue normal”. Mas é claro. Não muda em absolutamente nada para nós, apreciadores do seu imenso talento, se ele namora Mario ou Maria. Só que a necessidade de fazer um vídeo, abrir o coração, mostra o quão contraditória é a frase.

Pablo tirou um peso. Por mais que família, amigos, gravadora e boa parte dos fãs já soubessem, é triste se esconder atrás de estereótipos. Ser gay não deveria ou poderia ser um evento, uma notícia, motivo de dissertação. Não mais.

Me lembro de quando Joy Huerta contou que seria mãe. Sua esposa, Diana, carregava no ventre a pequena Noah. Assim, sem preâmbulos, e assim deveria ser para todos.

Mas eu entendo o esforço e a intenção de Pablo Alborán. Estamos no mês do Orgulho LGTBQ+. Ontem, em conversa com a Paty Cantú, falamos sobre uma frase do single No Hacemos Nada que diz: “callar es lo mismo que huir” e comentados que ela poderia ser aplicada em várias esferas da vida.

Pablo falou, a vida vai seguir, ele não precisa mais se “esconder” e o principal: vai servir de exemplo para que muitas pessoas não se sintam diferentes, incapazes, em sofrimento psicológico e emocional. Ainda precisamos de porta-vozes em causas que não deveriam ser manchetes. Em 2020, no ano em que teríamos carros voadores, não deveríamos mais ter de reforçar que ser gay é normal, que ser negro é só cor da pele, que ter nascido no lugar x ou y não te torna superior, que ser mulher não é ser inferior, e por aí vai…

Sequer me sinto confortável em dizer coisas do tipo “força, Alborán”, “parabéns pela coragem”, porque gostaria que isso sequer fosse assunto. Só digo: “seja mais feliz do que antes, Pablo”. Como você quer.

Abaixo, leia a íntegra do depoimento de Pablo Alborán

“Sempre me expressei contra qualquer manifestação que fere qualquer tipo de liberdade e igualdade. Desde racismo, sexismo, xenofobia, transfobia, homofobia e qualquer tipo de ódio. Hoje quero que meu grito seja um pouco mais forte e tenha mais valor e peso. Estou aqui para contar que sou homossexual e que nada muda, a vida segue igual. Preciso ser um pouco mais feliz do que antes. Muitas pessoas supõem, sabem ou não querem saber. Aqui em casa, com minha família, sempre senti a liberdade de ser quem eu queria ser, de fazer o que eu queria fazer e sempre me senti apoiado de ir atrás de cada um dos meus sonhos. No meu trabalho, na minha gravadora e entre todos meus amigos, nunca senti discriminação, ódio ou que decepcionei alguém por ser eu. Mas infelizmente, há muitos que não pensam assim e por isso esse medo também.

Espero que eu possa ajudar alguém com essa mensagem. Mas, acima de tudo, eu faço isso por mim. Sempre escrevi canções que falam sobre você, sobre eu, sobre o que acontece ao nosso redor, sempre senti que qualquer um pode se relacionar com minhas letras, não importa o gênero, idade ou até mesmo idioma. Porque a música é livre e eu quero me sentir livre como em todas minhas músicas. Quero ser coerente, consistente e 100% verdadeiro comigo mesmo. Vou seguir concentrando minha vida pública com meu trabalho e tentar fazer as melhores músicas, com tudo que tenho, com respeito absoluto à profissão e aos meus fãs. Quero agradecer pelo carinho que sempre recebi e o apoio incondicional que sempre recebi.  Quero vê-los logo e mostrar tudo que tenho preparado. Vem aí um álbum muito especial. Mando um abraço muito forte e vamos viver, vamos viver porque a vida é muito curta“.

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🙂

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