Pablo Alborán assume homossexualidade. E a gente PRECISA SIM falar disso.

O LatinPop Brasil sempre abraçou causas, defendeu suas bandeiras. E sempre reconheceu seus erros. A matéria sobre a revelação da homossexualidade de Pablo Alborán rendeu vários comentários sobre lugar de fala. Eu, mulher, hétero, entendi o erro e a colocação. É preciso abrir o espaço para que os gays reajam à publicação e, eles sim, digam se a normalização por meio de notícia é válida ou não.

O leitor Fabricio Alexandre, 35 anos, professor de inglês, doutorando em Linguística, morador de João Pessoa, na Paraíba, se ofereceu para nos ajudar na empreitada de ajustar o texto. O original vai seguir e suas colocações estarão em negrito.

“A busca por uma naturalização aconteceu durante o texto, foi o eixo central da matéria. Acredito que ele está permeado pela intenção de ajudar.

No meio do caminho, cometeram certos deslizes que não caem bem aos gays. Você não faz ideia por não ser gay. Algumas alterações tornariam o texto mais coerente com a causa”, disse Fabricio.

Leia suas observações a seguir:

(início do texto original)

“Pablo Alborán confessa”. “Pablo Alborán sai do armário”. “Pablo Alborán revela”. Os títulos das matérias sobre o vídeo postado pelo espanhol nesta quarta-feira (17) são a prova de que a sociedade ainda não aprendeu a lidar com a homossexualidade.

Em um bonito desabafo, o cantor disse que “precisa ser mais feliz do que era antes” e conta aos fãs que é gay. Se fosse motivo para graça, aqui no Brasil usaríamos o meme “e choca 0 pessoas”. E não é. O leitor Fabricio Alexandre reforça que não há nenhuma razão para piada ou para depreciar a revelação de Alborán.

Destaque: Paty Cantú – exemplo de força, humanidade e talento em entrevista exclusiva

Mas a pergunta que fica é: por que esse tipo de declaração ainda é notícia? Por que, em 2020, com um vírus que assola o mundo, a pessoa com quem você dorme ainda causa curiosidade? Por que as pessoas sentem a necessidade de opinar sobre isso? A pessoa com quem você dorme é uma expressão que reduz a um simples gosto. Não é escolha. Você reduz a um momento de sexualidade. Ser gay é ser, não estar, não se trata de um momento isolado.

É cruel. E por isso eu entendo a postura de Alborán: quando fala sobre a liberdade que teve para se assumir à família, amigos, gravadora, ele incentiva a normalização. “Sou gay, e…”

A verdade, sabemos, é que por mais que muitas pessoas estejam no processo de desconstrução homofóbica, vivemos em um mundo que sufoca a liberdade e torna a orientação sexual uma etiqueta.

O malaguenho disse ainda que a “vida segue normal”. Mas é claro. Não muda em absolutamente nada para nós, apreciadores do seu imenso talento, se ele namora Mario ou Maria. Só que a necessidade de fazer um vídeo, abrir o coração, mostra o quão contraditória é a frase. Mostra um processo de libertação. O processo de falar é algo simbólico, tem um efeito no nosso corpo, na mente e no espírito. Falar mostra que você abandona seu eu antigo e assumindo sua condição natural de ser. Ainda precisamos falar. Enquanto não atingirmos a igualdade, ainda é preciso falar.

Pablo tirou um peso. Por mais que família, amigos, gravadora e boa parte dos fãs já soubessem, é triste se esconder atrás de estereótipos. Ser gay não deveria ou poderia ser um evento, uma notícia, motivo de dissertação. Não mais.

Me lembro de quando Joy Huerta contou que seria mãe. Sua esposa, Diana, carregava no ventre a pequena Noah. Assim, sem preâmbulos, e assim deveria ser para todos. Houve um outro tipo de postura. A sociedade ainda vê como menos aceitável a relação de dois homens. A comparação não foi feliz. Falo a partir do que vejo e vivo.

Mas eu entendo o esforço e a intenção de Pablo Alborán. Estamos no mês do Orgulho LGTBQ+. Ontem, em conversa com a Paty Cantú, falamos sobre uma frase do single No Hacemos Nada que diz: “callar es lo mismo que huir” e comentados que ela poderia ser aplicada em várias esferas da vida.

Pablo falou, a vida vai seguir, ele não precisa mais se “esconder” e o principal: vai servir de exemplo para que muitas pessoas não se sintam diferentes, incapazes, em sofrimento psicológico e emocional. Ainda precisamos de porta-vozes em causas que não deveriam ser manchetes. Em 2020, no ano em que teríamos carros voadores, não deveríamos mais ter de reforçar que ser gay é normal, que ser negro é só cor da pele, que ter nascido no lugar x ou y não te torna superior, que ser mulher não é ser inferior, e por aí vai… Negros e gays têm dores semelhantes. Os outros exemplos poderiam ser usados tranquilamente. Ser negro é só cor de pele é como dizer que o que vale é só o que está dentro, não é uma frase bem-vinda. A cor da pele tem relação com a luta. Esse exemplo poderia ser retirado.

Sequer me sinto confortável em dizer coisas do tipo “força, Alborán”, “parabéns pela coragem”, porque gostaria que isso sequer fosse assunto. Só digo: “seja mais feliz do que antes, Pablo”. Como você quer. Temos sim que dar força e dar parabéns pela coragem. É um ato de bravura. Venho de um bairro muito homofóbico. Esse encorajamento tem que ser evidenciado. A gente tem que dizer “meu filho, vai mesmo”. Ele ganhou mais de cem mil seguidores depois de se declarar. Existem filhos que querem se matar por não serem aceitos por seus pais. Em um mundo em que as pessoas segregam, é aí que tem que ser uma questão, tem que ser comentado e tem que ser discutido.

(fim do texto original)

Nós, do LatinPop Brasil, reiteramos que sempre estaremos à disposição para dar lugar fala a quem precisa ser ouvido. Agradecemos às inúmeras mensagens e ao Fabrício por essa lição que levaremos para a vida! Nossa homenagem e nosso apoio à sua luta vai em forma do seu clipe favorito do Pablo Alborán!

Abaixo, leia a íntegra do depoimento de Pablo Alborán

“Sempre me expressei contra qualquer manifestação que fere qualquer tipo de liberdade e igualdade. Desde racismo, sexismo, xenofobia, transfobia, homofobia e qualquer tipo de ódio. Hoje quero que meu grito seja um pouco mais forte e tenha mais valor e peso. Estou aqui para contar que sou homossexual e que nada muda, a vida segue igual. Preciso ser um pouco mais feliz do que antes. Muitas pessoas supõem, sabem ou não querem saber. Aqui em casa, com minha família, sempre senti a liberdade de ser quem eu queria ser, de fazer o que eu queria fazer e sempre me senti apoiado de ir atrás de cada um dos meus sonhos. No meu trabalho, na minha gravadora e entre todos meus amigos, nunca senti discriminação, ódio ou que decepcionei alguém por ser eu. Mas infelizmente, há muitos que não pensam assim e por isso esse medo também.

Espero que eu possa ajudar alguém com essa mensagem. Mas, acima de tudo, eu faço isso por mim. Sempre escrevi canções que falam sobre você, sobre eu, sobre o que acontece ao nosso redor, sempre senti que qualquer um pode se relacionar com minhas letras, não importa o gênero, idade ou até mesmo idioma. Porque a música é livre e eu quero me sentir livre como em todas minhas músicas. Quero ser coerente, consistente e 100% verdadeiro comigo mesmo. Vou seguir concentrando minha vida pública com meu trabalho e tentar fazer as melhores músicas, com tudo que tenho, com respeito absoluto à profissão e aos meus fãs. Quero agradecer pelo carinho que sempre recebi e o apoio incondicional que sempre recebi.  Quero vê-los logo e mostrar tudo que tenho preparado. Vem aí um álbum muito especial. Mando um abraço muito forte e vamos viver, vamos viver porque a vida é muito curta“.

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🙂

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