Luta e luto: verbo e sentimento se confundem e pedem posicionamento. Brasil, 2020!

No exato momento em que escrevo este texto, o número de mortos no Brasil pela Covid-19 está em 29.341. No próximo levantamento do Ministério da Saúde, divulgado mais para o fim da tarde, é muito provável que o país ultrapasse a marca das 30 mil vítimas fatais.

Um número emblemático. Jair Bolsonaro, atual presidente da República, disse em entrevista no fim da década de 1990: “o voto não vai mudar nada no Brasil. Só vai mudar infelizmente quando partirmos para uma guerra civil, fazendo um trabalho que o regime militar não fez. Matando uns 30 mil, começando com FHC (ex-presidente), não vamos deixar ele pra fora, não”.

Não há guerra, na teoria. A profecia do Messias supremacista foi cumprida pelo novo coronavírus, que já vitimou outras 373 mil pessoas pelo mundo. A crise sanitária sem precedentes instaurada desde o anúncio do primeiro infectado no Brasil, em fevereiro, escancarou todas as nossas feridas estruturais e humanitárias. Falhamos, mais uma vez.

Entre práticas fascistas e apologia diária ao nazismo e regime ditatorial, não há mais lado do muro a ser escolhido. Ou você se posiciona, ou você é conivente. Desde que entrou no ar, em 2015, o LatinPop Brasil sempre defendeu as suas causas. Hoje, com o mundo de ponta cabeças, não pode ser diferente.

Não bastasse o descaso diante do vírus letal, o escárnio sobre a pilha de corpos, a completa falta de gerência no combate à enfermidade, outra doença deixou os escombros e, sem vergonha alguma, ganha as ruas e ecoa no grito de “mito” de quem encontrou no presidente um respaldo para a misoginia, o racismo, o machismo, a xenofobia, o preconceito contra todas as minorias. Empunhando tochas, gralhando contra a democracia, seu séquito esqueceu o pudor.

Ontem, domingo 31 de maio, a escolta (i)moral do Governo encontrou resistência. Torcidas organizadas foram às ruas sob os gritos de DEMOCRACIA (a maiúscula, embasada na Constituição Federal, não em uma pretensa Carta Magna de desatinos elitistas). Mais uma vez, o jovem negro esbarrou no fuzil, a senhora branca com um taco de beisebol e exibindo a bandeira americana foi protegida, e a putrefação diária da sociedade igualitária voltou à tona.

Não, não é “privilégio” brasileiro. Nos Estados Unidos, o assassinato de George Floyd por um policial branco gerou a maior manifestação antirracista desde a morte de Martin Luther King, em abril de 1968. Tanto lá, quanto cá, as pessoas enfrentaram o perigo do vírus contra o perigo do fascismo.

Há duas semanas, no Rio de Janeiro, o menino João Pedro, de 14 anos, também foi morto em uma operação policial no Complexo do Salgueiro. As paredes da sua casa, onde se encontrava, têm 72 perfurações de tiros.

E o que tudo isso tem a ver com música? A cadeia de acontecimentos já não pode ficar limitada a uma editoria. Somos um site jornalístico e, como tal, precisamos estar ao lado da liberdade de imprensa e de todo e qualquer movimento que aja em favor dos que lutam por justiça e igualdade.

Levantamento feito em janeiro mostra que o público do LatinPop Brasil é formado majoritariamente por mulheres e LGBTQ+, quase 82% das milhares de pessoas que nos visitam diariamente.

Hoje, a gente se cala. Por Georges, Marielles, Benjamins, Acacios, Aghatas, Fernandos, Gracias, Zulmiras, Veras e tantas outras vítimas de preconceito, descaso, racismo, feminicídio e crimes de ódio.

Às custas de seguidores e audiência, fizemos nossa escolha. Até às 15h desta terça-feira (2), o nosso silêncio será nosso grito mais profundo. Porque “apesar de você, amanhã há de ser outro dia…”

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