Andrea Bocelli e Rodrigo Rodrigues: os lados opostos da mesma tragédia

Foi praticamente simultâneo. Soube da declaração do Andrea Bocelli sobre a pandemia do coronavírus pouco antes do jantar. Pensei: “vou comer e volto para o computador para redigir a matéria”.

Enquanto jantávamos, um amigo do meu marido fez a ligação que não queríamos receber desde o último sábado, quando soubemos da internação do amigo e colega de trabalho Rodrigo Rodrigues. A situação era irreversível, que não esperássemos boas notícias nesta terça-feira.

Caí num choro compulsivo e fui invadida por uma profunda tristeza. O RR foi colega de emissora do meu marido por alguns anos. Já eu coincidi com ele profissionalmente na música – ele tocava na Soundtrackers – e abria espaço para o Luciano Nassyn, ex-Trem da Alegria, meu assessorado à época, em uma fase de vacas magras.

Mas nossos encontros foram muito mais informais do que profissionais. Ali, na famosa Padaria Real, da Avenida Alfonso Bovero, muitas vezes jantávamos à espera do papai e ele sempre vinha fazer carinho e brincar com a Laura, minha filha. “E o Cruzeiro, Laurinha?”. Ao que ela, sempre sagaz e sapeca, respondia sorrindo: “Mas eu sou Galo!”.

O que as duas coisas têm em comum? Em maio, Bocelli informou que tinha sido infectado e curado da Covid-19. Ontem, em um arroubo de prepotência e ignorância, disse que se sentiu “humilhado pela quarentena” imposta pelo governo italiano, que não acredita no vírus e minimizou as mortes em seu país.

Eu gostaria que a notícia redigida fosse apenas essa. Mais uma verborragia de desinformação, outro desserviço à população, outro alienado que chega para contestar o óbvio: existe uma doença matando milhares de pessoas diariamente, pouco se sabe a respeito dele além do fato de precisarmos manter o máximo de isolamento social possível para diminuir a transmissão do vírus.

O que ele chamou de humilhação, Rodrigo Rodrigues cumpria, segundo os amigos mais próximos, à risca. Mas precisava, como milhares de pessoas, sair para o trabalho diariamente. E é por isso que aqueles que não têm a necessidade de sair devem ficar em casa. Se fosse é beneficiado pelo homeoffice, apenas agradeça e cumpra sua parte.

RR foi diagnosticado no dia 15 de julho. Foi afastado das atividades profissionais e se recuperava em casa até o último sábado, quando já na fase final de convalescença, sentiu-se mal. A Covid-19 é traiçoeira. O impacto da infecção ganha novos capítulos todos os dias. A “gripezinha” virou uma trombose cerebral. A doença é sistêmica, mexe com todo o metabolismo, todos os órgãos e seu desenvolvimento é uma roleta-russa que nenhum de nós deveria estar disposto a arriscar.

Mas arriscam. Arriscam ao zombarem do uso de máscaras. Ao negarem a Ciência. Ao colocarem suas necessidades pessoais de entretenimento à frente da saúde dos outros.

É a segunda pessoa que conheço que vai embora em decorrência das complicações do coronavírus. Um grande amigo perdeu o pai há dois meses. Hoje, nós perdemos um colega de profissão, tanto no jornalismo, quanto na música.

O LatinPop Brasil não poderia deixar de fazer essa homenagem, seja proximidade pessoal ou editorial. É mais uma das mais 88 mil vidas perdidas no meio do caos sanitário, político e social que vivemos.

Rodrigo Rodrigues, 45 anos, entrou para a estatística como um gigante. Um grande amigo, excelente profissional, um cara bom e do bem, com o verdadeiro significado dessa expressão. Andrea Bocelli apequenou-se em um discurso vazio, tacanho e entra para a história dessa pandemia pelo lado errado, o da negação e zombaria dos mortos: 655 mil em todo o mundo hoje.

Foi um texto difícil, pessoal, mas necessário. Há pouco, ouvi o Galvão Bueno dizer que quando a doença chega assim tão perto, é aí que precisamos gritar mais alto. É preciso militar, levantar bandeira, fazer campanha pelas máscaras, pelo distanciamento.

Se você pode, fica em casa. Você não precisa ir à praia. Você não precisa ir ao shopping. Você não precisa ir ao bar. É hora de cuidarmos uns dos outros.

Para que outros Rodrigos tenham mais sorte. E que Andreas não tenham voz.

Vá paz, RR. Até um dia.

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